“Os editores portugueses vão avançar para o ebook com prudência” (Nuno Pinho / @EstudosEdicao)


Nuno Pinho
é Mestrando em Estudos Editoriais pela Universidade de Aveiro e exerce estágio em secretário editorial nas Edições Almedina. É um dos “twitters” activos na discussão sobre o mercado livreiro. Sigam-no em @EstudosEdição


O que é um ebook?
Um ebook é um livro digital. Tal como o mp3 está para o álbum discográfico, este representa a digitalização e desmaterialização de um livro impresso. O exemplo mais vulgar de um ebook são os ficheiros pdf, embora com a ascensão dos leitores digitais tenha aparecido uma multiplicidade de formatos, e até de ebooks que vão para lá da mera digitalização dos textos, acrescentando funcionalidades multimédia aos mesmos.

Para o leitor, quais as vantagens do ebook vs livro impresso? E as
desvantagens?
Para o leitor, desenham-se duas vantagens principais: primeiro, poder transportar com grande facilidade uma “biblioteca” pessoal. Em segundo lugar, comprar livros a preço mais baixo, visto que é essa a tendência nos preços para os formatos digitais, ou em domínio público. Infelizmente ainda subsistem várias desvantagens, como a inexistência de um formato-padrão, penalizadores sistemas de protecção digital (vulgo DRM) e tecnologia ainda primária.

Ao longo desta década o negócio da música “virou” para o digital. O mesmo poderá acontecer, nos próximos 10 anos, no mercado do livro?
Sem dúvida que vai acontecer, pelo menos em certa medida. Esta inevitabilidade decorre de uma mudança no comportamento dos consumidores alicerçada na internet, que oferece agora uma economia da abundância, a par de uma cultura de “experimentar antes de comprar” e acesso gratuito aos conteúdos digitais. No entanto, acredito que esta mudança se fará de forma mais lenta neste sector, até pela dificuldade em superar a perfeição do objecto-livro. Como diz Umberto Eco, é como tentar fazer uma colher que seja mais eficaz. No entanto, a História ensina-nos quando um novo produto tende a desempenhar melhor as funções do seu antecessor, substitui-o. Como é mais fácil pesquisar num formato digital, as enciclopédias tendem a desaparecer. Acredito então que esta substituição se fará mais depressa para certos tipos de livros do que outros, dependendo das suas funções.

O que acontecerá aos milhares de livros em papel, se o livro digital for aceite massivamente?
Em certas áreas, especialmente no livro técnico e académico, acredito que os livros em papel tenderão a rarear. Noutras, acredito que o papel manter-se-á como versão de uma dada publicação. Há livros que surgirão primeiro em digital, e depois pelo sucesso ou necessidade individual serão impressos. Outros terão apenas tiragens de luxo ou coleccionador. A impressão será um complemento e não necessariamente o padrão. De qualquer forma, esta será uma mudança lenta e não acredito de forma alguma no desaparecimento total do livro impresso.

Em países como os EUA, o ebook e o mercado livreiro são temas na ordem do dia. O que esperar deste assunto em Portugal e em 2010?
Estamos muito longe de ser os EUA. Por cá, o desconhecimento ou desinteresse das editoras em relação à edição digital ainda parece ser reinante, pelo menos pelas intervenções públicas que se conhecem. Por outro lado, há que compreender que somos um país mais atrasado que os EUA na adopção de tecnologia e também não dispomos (ainda) da presença dos grandes gigantes que se movem neste sector (Amazon, Google, Sony). Assim, a meu ver, os editores vão avançar com grande prudência, mas os mais atentos não vão deixar de desenvolver projectos de implementação digital, ainda que tímidos. Acredito que já em 2010 algumas editoras tradicionais publicarão ebooks de livros portugueses.

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