Percorrendo a história da edição de livros digitais em Portugal, temos obrigatoriamente de nos referir à Centro Atlântico mas não só. A Sinapses foi, durante alguns anos, um projecto editorial de conteúdos gratuitos em português. João Pedro Pereira, jornalista, foi um dos três elementos do projecto amador e explica-nos como surgiu, porque findou, numa conversa em que são abortados também os desenvolvimentos do mercado de ereaders e ebooks no nosso país.
O fim da Sinapses deu-se há coisa de um ano. Quando começou e qual foi o percurso da editora de livros gratuitos?
A ideia nasceu no início de 2006 e o projecto foi fundado por três pessoas (eu, o Rui Justiniano e o Jorge Vaz Nande). Tínhamos já trabalhado juntos noutros projectos, no tempo em que estudámos em Coimbra.
Na altura, pouco se falava de ebooks, especialmente em Portugal. A ideia original tinha em vista a publicação de ebooks gratuitos e de eventuais edições impressas de alguns títulos, cujos custos seriam suportados por publicidade.
Tínhamos noção de que o conceito de introduzir publicidade em livros poderia não ser bem aceite, pelo valor afectivo que muitas pessoas projectam no livro-objecto. Chegámos a ter alguns contactos de potenciais anunciantes, mas por razões várias (que não apenas relacionadas com a publicidade) decidimos que não seria viável fazermos edições impressas.
A Sinapses entrou então numa segunda fase, dedicada em exclusivo à edição de ebooks. No entanto, um dos fundadores deixou o projecto e ficámos sem a pessoa que desempenharia o papel de editor. Note-se que todos tínhamos empregos e, portanto, o tempo para a Sinapses escasseava. O que era grave, tendo em conta que recebíamos dezenas de originais.
Eu e o Rui Justiniano aliciámos um outro amigo para o projecto, mas, também neste caso, foi difícil conciliar a vida profissional com a exigência de um projecto como a Sinapses.
Depois de alguns meses de impasse, resolvemos avançar para um modelo de revisão de obras feito pela própria comunidade de utilizadores. Por esta altura, o entusiasmo da web 2.0 estava no pico e a ideia estava em linha com os conceitos de colaboração, comunidade e conteúdo gerado por utilizadores que estavam muito na moda. Foi um erro e o sistema simplesmente não funcionou.
Quais os motivos do fim deste projecto?
Essencialmente, a falta de tempo e a impossibilidade de dedicação profissinal ao projecto. Provavelmente, seria preciso pelo menos uma pessoa a trabalhar a tempo inteiro. Ver resposta anterior.
Na música, as netlabels portuguesas continuam a editar. Na nossa Web, há espaço para editoras de livros gratuitos?
Os livros electrónicos têm de se financiar. Podem fazer isso da forma mais óbvia (e que me parece a mais eficaz): vender exemplares. Os últimos desenvolvimentos no mercado de ebooks (e não só) provam que há muito espaço para consumo de bens digitais, desde que com sistemas de pagamento funcionais.
Se os livros forem gratuitos, uma forma de financiamento é a publicidade – mas é uma alternativa difícil e arriscada.
Por fim, alguns sites de auto-edição (ver a Bubok, com presença em Portugal), oferecem serviços vários a autores, muitos dos quais são cobrados. É um modelo interessante, embora a Bubok não seja exactamente uma editora, na medida em que não faz trabalho de selecção e edição de obras.
Ao longo desta década o negócio da música “virou” para o digital. O mesmo poderá acontecer, nos próximos 10 anos, no mercado do livro?
É impossível avançar com previsões para os próximos 10 anos. O mercado
dos ebooks tem sido fortemente impulsionado (especialmente ao longo do
último ano) por empresas multinacionais.
A Amazon deu passos importantíssimos neste aspecto (desde o Kindle à
aplicação para o iPhone, que permite comprar ebooks para ler neste
telemóvel).
O recente iPad da Apple faz uma aposta forte nos ebooks (embora a loja de livros da Apple só vá estar disponível nos EUA). O aparelho pode vir a ser um concorrente muito sério no mercado dos leitores de livros electrónicos. Embora não tenha um ecrã de tinta electrónica (como o Kindle ou o Sony Reader), o iPad tem a vantagem de permitir ler ebooks e de conjugar no mesmo aparelho dezenas de outras funcionalidades, ao passo que os ereaders típicos são, essencialmente, leitores dedicados.
Dito isto, e contrariamente ao que acontece na música, o livro tem um grande valor como objecto (particularmente os livros de ficção, com os quais muitos leitores estabelecem uma relação afectiva). É claro que os discos em formatos físicos também têm valor como objectos. Mas a indústria da tecnologia de consumo (com o iPod da Apple à cabeça) soube criar produtos capazes de transpor para o leitor de música este
relacionamento do utilizador com o objecto – questões como a estética e o “factor fashion” são muito importantes na compra destes aparelhos. E o suporte da música acabou por desmaterializar-se.
Mais do que isto, porém, são relevantes as diferenças ao nível de hábitos de consumo. Ler um livro e ouvir uma canção são experiências radicalmente diferentes. A maioria das pessoas não precisa de trazer consigo mais do que um livro num dado momento. Ninguém está numa paragem de autocarro a percorrer uma biblioteca com centenas de títulos e a decidir que livro lhe apetece ler naquele momento. Para muitos hábitos de leitura, o papel ainda é uma excelente tecnologia.
Como interessado na área de tecnologia, prevê a adopção “viral” dos leitores de ereaders em Portugal? Ou será uma “moda” que passará ao lado?
É difícil dizer. Ainda ninguém sabe muito bem o tamanho do mercado dos
ereaders. A Amazon não revela números de vendas do Kindle. O iPad da
Apple poderá dar uma ajuda. Mas, em Portugal e no resto do mundo, não
será um boom como aconteceu com os leitores de MP3.


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