Do papel ao digital, por José Afonso Furtado

O eBookPortugal volta a questionar José Afonso Furtado, sobre o “papel” dos livros no cenário “digital”.

O autor de “A Edição de Livros e a Gestão Estratégica” (Booktailors, 2009), é um dos nomes portugueses de destaque na avaliação das mudanças de mercado. Dirige a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1992, exerce docência no curso de Pós-Graduação em Edição – Livros e Novos Suportes Digitais, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

O que acontecerá aos milhares de livros em papel, se o livro digital for aceite massivamente?

Como se depreendeu, não é coisa de que esteja nada convencido. Mas para entrar nesse cenário algo fantasioso, diria que espero sinceramente que não suceda o que ocorreu (certamente em menor escala) em meados do século passado quando o frenesi da microfilmagem levou à alienação e destruição de milhões de livros e jornais das bibliotecas. Não que as empresas que estão neste momento a bater à porta das instituições e biliotecas, designadamente o «Gigante da Califórnia», não pareçam poder vir a cometer os mesmos erros com a digitalização das espécies bilbiográficas que os «especialistas» das microformas há 50 anos.

O livro impresso corresponde na realidade a uma particular tecnologia de produção, transmissão e conservação do texto. Esta tecnologia não deixa de influenciar o tipo de textualidade produzida, transmitida e conservada, ou seja, os textos produzidos no interior do «ambiente gutenberguiano» transportam a sua marca estrutural. E não reconhecer esse «selo» tecnológico equivaleria a aceitar a ideia de que a informação tem uma forma e integridade independente do sistema em que é produzida e consumida. O texto seria assim uma substância neutral, transferível independentemente da sua base material. O ponto fundamental é que as características do interface utilizado não são de nenhum modo «neutrais» e não deixam de influenciar quer a estrutura textual quer os modos de fruição do texto. Acresce que a questão do suporte é essencial para o estabelecimento do estatuto dos textos, pois é através deles que se identificam as modalidades concretas de presentificação dos textos: «em que assenta este ser de linguagem? Surge num écrã ou impresso em papel? Apresenta-se isoladamente ou em relação com outros signos? Em que contexto é lido?» como refere Bertrand Gervais.

Há não muito tempo, interrogado sobre a sobrevivência da biblioteca tal como a conhecemos, neste ambiente digital e aparentemente desmaterializado, Roger Chartier defendia que o processo de digitalização exige com ainda maior energia a manutenção da definição tradicional de biblioteca, porque com ela tocamos sempre num ponto fundamental, ou seja, como dizia Don McKenzie, as formas afectam o sentido. Ora, o grande perigo do processo de digitalização é deixar crer que um texto é o mesmo seja qual for a forma do seu suporte. Por mais fundamental que seja o acesso a textos sob forma digital, o que esta digitalização em massa reforça é o papel de conservação patrimonial das formas sucessivas que os textos tiveram para os seus sucessivos leitores. A tarefa de conservação, de catalogação e de consulta dos textos nas formas que foram as da sua circulação torna-se um imperativo absolutamente fundamental que reforça a dimensão patrimonial e de conservação das bibliotecas.



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