ebook vs livro impresso, por José Afonso Furtado

Retomamos a entrevista a José Afonso Furtado sobre livros, leitores digitais e o mercado livreiro.

Hoje, perguntamos ao autor A Edição de Livros e a Gestão Estratégica (Booktailors, 2009) quais os  pontos fracos e fortes dos dois formatos de leitura.

Quais as vantagens do ebook vs livro impresso? E as desvantagens?

De modo genérico, as vantagens do ebook (no sentido mais alargado a que me referi na pergunta anterior), assentam, para o leitor (o que não coincide necessariamente com as vantagens para os outros agentes da fileira do livro), em tudo o que acrescente valor ao produto final, seja ele o equivalente digital de um livro «tradicional», sejam documentos ou bases de dados. Assim, aspectos como a facilidade de acesso; a possibilidade de actualização rápida, frequente e sem custos elevados dos conteúdos; a capacidade de disponibilizar grandes quantidades de material; as possibilidades de pesquisa no corpus e através de corpora; a intertextualidade e as características multimédia, podem constituir benefícios evidentes para o leitor.

Contudo, isso dependerá de uma relação entre tecnologias, mercados e tipos de conteúdo que é complexa e exige uma compreensão mais fina do sector da edição. Para tanto, é necessário compreender que uma análise consistente da indústria editorial passa por uma rigorosa segmentação do mercado. Uma análise global ou o privilégio muitas vezes conferido ao segmento da edição generalista leva a extrapolações erróneas e não permite apreender as tendências, os nichos, as diferenciadas velocidades, os desafios e as oportunidades que, num dado momento, caracterizam o conjunto do sector. Na realidade, a indústria da edição é um domínio enormemente complexo e variado. Existem muitos tipos de edição e diversos livros e mercados, não tendo sentido tratá-los como um todo, devendo assim desagregar-se a noção genérica de «indústria da edição de livros». Significa isto que haverá segmentos onde as vantagens dos conteúdos digitais serão inquestionáveis para o leitor (noção que deveria igualmente ser pluralizada), e outros onde o valor acrescentado é praticamente irrelevante. Isso justifica que nalguns deles se tenha verificado uma transição acelerada para o novo ambiente tecnológico, enquanto noutros o livro impresso se mantém relativamente tranquilo e o número de títulos publicados anualmente tem inclusivamente aumentado (o que não deixa, aliás, de constituir um outro problema…).

Mantendo a mesma atenção à segmentação do mercado, a passagem dos livros para o universo digital tem naturalmente consequências que podem ser consideradas como desvantagens face à cultura do «impresso». A psicologia cognitiva tem vindo recentemente a desenvolver pesquisas sobre a leitura digital, concentrando-se quer sobre os aspectos mais materiais do medium quer sobre o paralelo  hipertexto/leitura clássica. Dois pontos emergem desses trabalhos: por um lado, a leitura em ecrã experimenta ainda sérios limites de visibilidade e de legibilidade, podendo ocasionar défices de percepção; por outro, a compreensão do texto digital é, por agora, inferior à compreensão do texto impresso. Este segundo ponto relaciona-se com um aspecto em que Roger Chartier tem insistido, ou seja, o desvanecimento da percepção imediata da obra na sua unidade ou na sua totalidade, o que tem como consequência o primado concedido ao fragmento, ou seja, «ao extracto de uma sequência», e daí a percepção de todos os textos em forma digital «a partir do modelo do banco de dados» ou, pelo menos, «a dificuldade de uma percepção do que é a totalidade da obra de onde esses fragmentos são retirados». Assim, perante a força homogeneizante do dispositivo de recepção, é indispensável a capacidade de saber «qualificar» os textos enquanto produções culturais, sob pena de lidarmos com uma matéria informacional indistinta, leitura qualificante que é mais exigente para o leitor do que a leitura tradicional. De facto, o texto digital gera os seus modelos que nem sempre são perceptíveis para o internauta, pois  qualquer site releva simultaneamente de vários «géneros» diferentes sem que esses «géneros» coincidam necessariamente, aliás, uma vez transportados para o espaço do ecrã, com os do universo de onde provêm.

Mas há outros aspectos de âmbito mais geral que não podemos descurar: a variedade de formatos, a ausência de interoperabilidade, a dependência de plataformas e softwares proprietários, o controlo por vezes intrusivo e abusivo dos mecanismos de gestão da propriedade intelectual – que tem levado à progressiva perda (em prejuízo dos consumidores) de uma tradição de equilíbrio na legislação sobre propriedade intelectual entre a protecção dos autores, dos detentores do copyright e de certos direitos públicos de uso e acesso aos conteúdos, como ao “fair use” ou a doutrina da “first sale” –  e o aparecimento de novos modelos de negócio que se baseiam progressivamente em licenças e não no tradicional quadro de compra e venda típicos da história do livro.

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