
Retomamos a entrevista a José Afonso Furtado. O autor de “A Edição de Livros e a Gestão Estratégica” (Booktailors, 2009), foca-se hoje no desenvolvimento digital do mercado livreiro em comparação com a indústria cultural da música.
Ao longo desta década o negócio da música “virou” para o digital. O
mesmo poderá acontecer, nos próximos 10 anos, no mercado do livro?
De algum modo está tudo a virar para o digital, o que não significa necessariamente o desaparecimento de produtos de outra natureza mas mais uma complementaridade a prazo. O privilégio concedido à indústria da música como uma espécie de benchmarking para o mercado do livro é, pelo menos, discutível, e prende-se em grande medida com o receio dos editores em relação a situações com que esse mercado se deparou na passagem para o digital, em particular os mecanismos de P2P e da «pirataria» que o novo ambiente facilitaria. Ora, nem a indústria discográfica se desmaterializou a esse ponto (segundo dados da IFPI – International Federation of the Phonographic Industry – só 27% das receitas da indústria eram provenientes de canais digitais), nem é líquido que a comparação seja adequada.
Na verdade, as diferenças entre oas dois sectores são significativas. O livro, ao enfrentar a emergência das tecnologias digitais, transporta consigo uma herança sedimentada que vem, num sentido restrito, pelo menos desde o dealbar da era cristã, com a invenção do codex. Como refere Clifford Lynch, apenas com os textos digitais os livros se deparam, pela primeira vez, com questões que sempre foram familiares para os editores de música e de vídeo.
Ao contrário do texto impresso, a mediação através da tecnologia de «equipamentos de leitura» (players) é uma parte intrínseca da fruição dos registos musicais e do vídeo, em que as actividades de audição, gravação e reprodução estão normalmente associadas. Neste campo, a mediação tecnológica vulgarizou a aceitação de expectativas bastante específicas por parte dos consumidores, pois sabe-se de antemão, por exemplo, que essas tecnologias virão a tornar-se obsoletas, não se garantindo a sua usabilidade num prazo ilimitado. Ora, a mediação tecnológica é basicamente estranha ao mundo do livro. O livro impresso sempre teve a vantagem de não exigir qualquer dispositivo técnico para ser lido, de ser imediatamente visível, folheável e consultável e de ser fácil de emprestar. Por outro lado, é um dos mais antigos media, certamente o medium mais antigo em termos de produção e comercialização em massa. O papel – pelo menos o papel bem feito – dura muito tempo. Estas propriedades estão estreitamente relacionadas com a função e estatuto únicos dos livros. A música gravada sempre foi mais frágil.
Os discos de 78 RPM dos nossos pais ou avós, são hoje só precariamente acessíveis, devido à contínua mudança de tecnologias, a menos que tenham sido reeditados na nova tecnologia por uma editora musical ou transferida para um medium mais moderno por alguém que possua uma cópia do registo original. Se é certo que um leitor de CDs audio, assim como um leitor de DVDs ou de mp3, custa poucas centenas de euros, a substituição uma colecção de LPs por CDs (ou destes por ficheiros mp3) ou de uma colecção de vídeo cassettes por DVDs, pode ter custos elevados, e isto no espaço de apenas uma ou duas décadas.
De todo o modo, a transição para ficheiros digitais não é um fenómeno que se afaste significativamente do conjunto de transformações por que a indústria musical tem passado na sua centena de anos. A passagem para um workflow digital já não é recente, o que acontecia era que o output final era (ainda é em grande medida) um objecto material, um CD. Acresce que a indústria fonográfica tem características específicas que, bem compreendidas, permitiram uma solução como a desenvolvida pela Apple com a sua loja iTunes e os seus dispositivos de leitura (não deixa de ser curioso que uma solução razoável tenha vindo de uma empresa estranha ao mundo da música…). Para isso bastou mudar a perspectiva, ou seja, deixar de se centrar no produto para se centrar no consumidor e em criar valor para ele. Mas o valor para o comprador de música na iTunes ou noutra loja semelhante não é o mesmo do que para o leitor na indústria da edição de livros. Vejamos apenas dois aspectos: salvo segmentos bem específicos (como, por exemplo, o da música clássica), a unidade final apresentada para venda dependia mais da tecnologia disponível do que a concepção unitária de uma obra (apesar da luta recente dos Pink Floyd), o que significa que nos encontramos perante produtos com elevado grau de granularidade o que permite vender faixas ou canções e não um conjunto coeso (um disco de 78, um LP, um CD). Por outro lado, com raras excepções (estou a pensar no valor conferido ao design das capas no vinil ou nos booklets que acompanhavam os suportes físicos de distribuição da música) o suporte ou o player «desparecem» quando se começa a ouvir música. Ora, seja impresso ou digital, nada disso acontece com um livro, o que significa que a equação físico/sensorial da audição de música é muito diferente da realidade da leitura.
Seja o que for que acontecer nos próximos dez anos no sector do livro (e considero que já dei pistas do que pensava na pergunta anterior) não terá muito a ver com o que se passou e passa na música, por muito que os observadores anseiem por um já quase mítico tipping point, que levaria a que os livros se transferissem sem mais e com a rapidez da indústria fonográfica para o tudo digital ou que um qualquer dispositivo tipo iPod viesse resolver as dificuldades da edição.
Como escreveu recentemente Mathew Ingram, «everyone talks about the iTunes model and the iPod, but while those devices have been phenomenally successful for Apple itself, the music industry as a whole is still a complete mess. A single device, however powerful or magical, can’t change the entire cost structure of an industry. The publishing industry should spend more time thinking about how their business is changing fundamentally — regardless of what platform the content appears on — and less time thinking about how to make a Hail Mary pass to one specific platform.»
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