
Com a publicação da quinta questão/resposta, concluímos a entrevista a José Afonso Furtado sobre mercado editorial entre o papel e o livro digital.
Desta vez, é pedido ao autor de “A Edição de Livros e a Gestão Estratégica” (Booktailors, 2009) que se foque no contexto nacional e verbalize sobre qual o presente da edição de livros digitais.
Em países como os EUA, o ebook e o mercado livreiro são temas na ordem do dia. O que esperar deste assunto em Portugal e em 2010?
Vamos por partes. Se tivermos em consideração o que antes disse sobre a imprecisão teminológica que campeia nesta área, diria que até pode ser um tema tratado com relativa frequência, mais como reacção a expectativas mediáticas do que como atitude pró-activa por parte dos players. O que em parte não é de estranhar, pois os segmentos onde a edição digital atingiu uma fase avançada de implantação são historicamente estranhos ao mercado português: STM e edição profissional. Se relacionarmos os custos de preparar e manter um fluxo de trabalho digital com a divisão por segmentos e com a dimensão dos operadores, verifica-se que os grupos Porto Editora e Leya se encontram em posição privilegiada, já pela sua prática de trabalho na área do livro escolar (onde a incorporação das novas tecnologias é significativa) e pela seu nível de facturação. Mas, sejamos realistas, em nenhum lado encontro no segmento trade (e muito menos entre nós) massa crítica para um mercado de ebooks. Por exemplo, em França, a edição electrónica representa 0,1% do mercado global. Saramago poderá ser editado na Kindle, o Centro Atlântico (que trabalha bem o seu nicho de actividade) fará o mesmo com a suas edições, mas isso em nada altera as condições para a criação de uma infra-estrutura no nosso mercado.
Ainda há não muito tempo, após ouvir responsáveis de várias casas editoras portuguesas, o Correio da Manhã apresentava uma peça que tinha como título «E-book ainda é miragem», e onde a atitude geral era de relativa «despreocupação» e de «esperar para ver». Não me espanta ,mas também não o creio completamente: há bem pouco, Paulo Teixeira Pinto, numa entrevista ao Jornal de Negócios, afirmava que tem em mãos uma plataforma tecnológica dedicada a conteúdos digitais que chegará aos PALOP e ao Brasil.
Mas essa atitude aparentemente generalizada de expectativa, podendo certamente significar que as editoras não estão preparadas para enfrentar os desafios do livro electrónico, representa uma espécie de anomia que causará a prazo os seus efeitos nefastos. Não se espera pelo futuro, prepara-se o futuro.
E, independentemente da identificação errónea da edição digital com a distribuição electrónica de conteúdos através de um dispositivo tecnológico, o que está em causa é a criação de um workflow digital que, desde o início da rede de valor da edição, prepare as empresas para utilizar estratégias diversificadas de edição e comercialização: gestão do conteúdo e tecnologias de edição cross-platform e cross channel, versioning, diferenciação de preços, bundling e, sobretudo, assumir uma perspectiva de «Gestão de Conteúdos Digitais» (Digital Content Management).
Segue-nos